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Pro Paz em Marabá fortalece rede de garantias de direitos da mulher e da criança

Além do atendimento psicossocial, médico e de delegacia, o Pro Paz tem feito várias ações externas, como participação em atividades multidisciplinares na rede de atendimento à criança, ao adolescente e à mulher.

 

Aos 21 anos, Brisa Maria Azevedo está se descobrindo uma mulher forte e decidida. Há alguns meses ela se libertou de um relacionamento de três anos que se tornou abusivo. Durante o divórcio, apoiada pelos advogados, a funcionária de uma agência de viagens decidiu denunciar o ex-marido e procurou o Pro Paz em Marabá.

“Eu fui percebendo que estava num relacionamento abusivo na forma que ele falava comigo. Eu discordava de alguma coisa, ele saía me arrastando pelo braço e me sacudindo, até que chegou ao ponto da agressão física, socos e esganamentos, muitas vezes eu quase desmaiei. Eu tinha muito receio de vir aqui denunciar porque eu não sabia o que ele podia fazer comigo, mas com a ajuda dos advogados eu acabei vindo, prestei depoimento, fiz boletim de ocorrência. Graças a Deus estou fazendo acompanhamento psicológico, a gente acaba se culpando, e na verdade você é a vítima”, declarou Brisa.

Assim como Brisa, muitas mulheres têm se encorajado a denunciar a violência doméstica com a implantação do Pro Paz Integrado em Marabá. Segundo a coordenadora da unidade, Rafaela Gurjão, de agosto, quando foi inaugurado, até outubro deste ano, foram registrados 386 atendimentos psicossociais e perícias em crianças e adolescentes e mulheres vítimas de violência. Ela esclarece que têm crescido as denúncias de casos de abusos sexuais de crianças e adolescentes, principalmente ocorridos na zona rural.

“Acredito que as pessoas se sentem mais confortáveis de vir aqui, inclusive pela receptividade, temos recebido vários elogios por conta do acolhimento, de ser uma coisa realmente integrada com o atendimento social, médico, psicológico e a delegacia. As pessoas se sentem mais acolhidas de ter isso num único espaço”, garantiu.

Segundo a delegada Ana Paula Fernandes, de atendimento à mulher, a criança e ao adolescente, de agosto até agora, foram instaurados 110 inquéritos policiais com pedidos de 85 medidas protetivas. Ela esclarece que as mulheres estão se conscientizando que não precisam esperar agressão física para denunciar.

“Com  a inauguração do Pro Paz a demanda aumentou muito, principalmente em relação ao número de denúncias de mulheres vítimas de violência doméstica. Acredito que essa estrutura, fato de ter psicóloga, assistente social, a médica e poderem fazer o exame sem precisar ir para o Instituto Médico Legal, tudo isso faz com que elas tenham mais coragem para denunciar já na fase da ameaça. Há muitos inquéritos de ameaça, elas não estão esperando lesão corporal ou algo pior para poder denunciar”, ressaltou.

Prevenção

Além do atendimento psicossocial, médico e de delegacia, o Pro Paz tem feito várias ações externas, como participação em atividades multidisciplinares na rede de atendimento à criança, ao adolescente e à mulher. De agosto a outubro já foram 38 participações. Na quarta-feira, dia 21, a presidente da Fundação Pro Paz, Monica Altman, esteve em Marabá para uma avaliação do atendimento e serviços oferecidos.

“Nessa reunião as meninas disseram que realmente foi um processo de sensibilização junto ao movimento de mulheres do município para a procura do serviço de atendimento especializado, que se dá gradativamente. A gente acredita que tem sido satisfatório para o município, a mulher se sente mais segura, mais acolhida numa situação de violência, nosso balanço de avaliação é que tem sido muito positivo a oferta de serviços”, concluiu a presidente.

Falando em acolhimento, para a assistente social Karla Cibele Pina Pompeu, esse é o grande diferencial do Pro Paz Integrado. Ela conta que com 15 a 20 atendimentos diários, poder ajudar as pessoas no momento de maior vulnerabilidade social tem sido recompensador. “Eles chegam, são registrados e encaminhados para o serviço social, a porta de entrada de todo atendimento do Pro Paz.  A gente explica como a instituição funciona, a nossa política e os encaminhamentos. Ao perceberem que hoje, dentro do município, existe essa nova modalidade de atendimento com serviço social, psicológico e médico, eles já ficam bastante aliviados. A violência começa de alguma forma a ser amenizada. Tem sido desafiador, uma lição cada dia, tudo isso é muito gratificante”.

Patrulha Maria da Penha

Uma novidade do Pro Paz de Marabá é a Patrulha Maria da Penha, que está em processo de instalação, algo que vai possibilitar maior efetivação nos cumprimentos das medidas protetivas nos casos de violência doméstica contra a mulher, esclarece a delegada Ana Paula. “A patrulha vai ser muito importante porque vai ter uma equipe que vai fiscalizar o agressor, ele vai saber que ele está sendo monitorado e que se descumprir a medida vai ser preso em flagrante, já que agora o descumprimento é crime” destacou.

Concomitante a esse trabalho de monitoramento policial e judicial, as vítimas conseguem ver um novo horizonte com o tratamento dado pela psicóloga Rafaela Gurjão. “É uma carga emocional muito grande, além da violência sofrida tem a questão da vulnerabilidade social, às vezes elas não sabem onde procurar ajuda.  As consequências imediatas são as físicas e, a longo prazo, as psicológicas (transtornos psicológicos de ansiedade, síndrome do pânico, depressão) e requer um trabalho muito intenso e de durabilidade maior com as crianças e adolescentes. Com as mulheres é diferente, em torno de seis meses elas já conseguem alta, às vezes os filhos entram no tratamento porque acabam sendo vitimas dessa violência sofrida dentro de casa”, explicoa.

Com a ajuda da psicóloga, a Brisa está conseguindo se livrar dos traumas e tentando se relacionar de novo, o tratamento está fazendo ela redescobrir que pode e deve ser feliz. “A gente nunca pode permitir que nos machuquem, nos menosprezem, não é fácil, mas é preciso ter coragem vir denunciar e fazer a coisa certa para evitar o pior, é preciso procurar ajuda, cada uma fortalecendo a outra. Agora eu estou bem, me sinto recuperada”. 

Por Kelia Santos